28 novembro, 2006

IGNORE

Eu não sei de nada.
E como não sei de nada nem sei se quero saber.
Mas vou ,a custo e a contra gosto, dechavando a vida enquanto ela me faz.
Enquanto ele me olha, enquanto outro me diz, enquanto tanta gente mente por esquecer da falsidade o não vigorar.
Enquanto nuvens roxas cortam tardes laranjas manchando a noite de cor.
Enquanto de tanto olhar pra ele sei seus olhos de cor.
Sei seus lábios de dor.
Sei dos seus beijos o amor que me sobra, que me resta... único.Cínico.
E assim me contradigo.
Mas não importa, se não sei de nada menos ainda devem considerar.
Só não quero olhar pra elas com desamor, por fazer do tato um banal consumo.
Chico disse: "Eu prefiro as putas". Não importa o contexto. Elas hão de ser abençoadas.
Mas o tato é mais. O tato é procurar aqui o que há de menos terreno. E é achar o deleite de sentir a alma na mais densa matéria. É religião. E no santuário de seu corpo eu hei de ser Deus dos teus carinhos, por achar neles o teu espírito e a tua excência. E ao me desfazer dela, sem amor ou sem cuidado, sou o pior pagão.
E não hei de julgar os loucos, se a vida me ensinou algo é que não há normalidade. Quem é são o bastante e em que parâmetros o é para definir a loucura? E se somos nós os loucos de pedra quem nos perdoará pela nossa incoerência? Pois se defino consciência como o que rege a maioria, quem é ditou à ela o ignorar? Quem é que ditou à ela a indiferença e o ato de banalizar a vida e a morte?
Mas eu julgo a pose, a falta de coragem, a indiferença.
É isso que me rói, mas é isso que me move.
Eu canto é pelos loucos, pelos cantos, pelos morros. Eu canto é pelas putas, pelos renegados e pelas margaridas que crescem em voltas dos brejos sujos desta cidade.
Pra mim aquele que desvia o olhar dos becos sujos tem medo de olhar pra dentro.
Pra mim quem está na sua cobertura em Manhatan e vem aqui fazer um pacote de turismo passeando de ônibus blindado na favela da Rocinha, apontando abismado para as casas amontoadas nas ruelas pra voltar da sua aventura urbana pra dormir tranquilo sobre traviseiros depena de ganso, não é abastado, é covarde.
Mas se o dom de uns é o ego inflado, caberá a eles pagar pelo caos da rebelião dos homens.
A violência é a reação dos renegados. Mas eu acredito em outras formas de se rebelar.
Pra mim quando o sol se põe é hora de acordar.
E quando o dia amanhece, é hora de andar na praia.
A tarde é quando se fecha os olhos pro dia pra mais tarde abri-los pra noite.
Pra mim falsidade não vigora nunca. E o erro nunca é de quem confia e sim de quem trai.
Por isso nunca perco a fé na vida, mas eu não sei de nada...
Ignore.

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