12 setembro, 2006

Por que dormir, se o sono não é tão sonho quanto, de olhos escancarados, beber nos olhos teus a doçura castanha de outros dias? Salivar pelo inexorável desejo da delícia de ser amante e de ser amada na imprevisibilidade de uma noite vã. E de amar, sim, mas calados, colados, alma e colo, calma e olhos ardendo laranjas pelos cigarros, destilando nosso sonho em brasa,fumaça,e pó.
Cinzas de um amor febril e louco, reincidente e torto, que embora vás embora ainda queima e resiste. E somos nós tão roucos, tão pálidos, tão fracos, ao ponto de abandonar a utopia ao primeiro obstáculo, mas ainda tão românticos, acreditamos ingênuos, que vale o sofrimento por uma parca lembrança, latente quando em noite de vento.
E sei que ,inevitavelmente, serei eu a tola a decorar seus trejeitos, seus gestos estranhos e as sentenças sagradas sobre a vida e seus maus-tratos. Sei que é fato que o dia engole nossos desejos, como um monstro faminto de luto, e somos nós insetos desesperançosos na luta contra um tufão. Mas não haveria em nós a semente perdida de um plano remoto, mas possível? E a crueza de nosssos corpos afins, e delícia de sentir um fragmento seu sobre minha pele fria, não seria enfim, o ressurgir de nós?
Você falava de sonhos, e o teu beijo era música. Hoje você fala de música e eu não sei do teu beijo. E assim, meus ombros sob teus olhos calados, ouvimos aquelas "so old songs" e mirávamos a estrela do Acaiaca, tão aceza quanto nós.
É hora de ir. E tantas palavras são soluços de dor. E quantos fonemas são anúncios de amor que nunca irão se conter. E o santo delírio de ter mais uma vez, soará pelos labirintos dos lábios seus, e morrerá na tua boca como um beijo marrom.

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