03 janeiro, 2006

Era maior que previa.Um dia de chuva revela sua dimensão.
Uma dor latente, uma paixão imensurável.Era como uma ferida antiga, que em dias
chuvosos dava suas fisgadas. Que amor é esse?
De onde veio? Onde vai? Com que intuito? Que gosto amargo é esse
impregnado na minha boca pra lembrar-te? Lembrar-me que não partistes, não aqui,
neste canto perdido meu. Lembrar-me que aquele dia adia o fim da minha dor.
Lembrar-me da bruma jorrando cinza dos teus cigarros. Do sorriso cínico. Tato.
De uns olhos castanhos, pra mim azuis.Da voz embargada. Do que mais?
Da dor constatada. Revelação de alguém. Noite se esvaindo sem querer.
Respiração ofegante... suspiros. Proximidade incômoda. Teus olhos atentos.
Do tato morno.Na nuca gélida de pavor. Da cerveja derramando meu transe na calçada.
Do beijo encarnado. Na pele. No peso do corpo. No meu. Uma brisa sul. No rosto pálido.
Do não. Soando como sim. Um erro. Adeus.
Despertava intranquila. A lembrança invadira meu sono pela terceira vez naquela semana.
Olhei pela janela. A chuva caía tortuosa. Vivia de lembrança havia quase cinco meses.
E aquele dia ardia e adiava o fim da minha dor.

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