09 setembro, 2005

Desce sobre o povo, uma nuvem densa e escura.Ela ameaça, ela berra estrondos fatais. Aterroriza as beatas nas paróquias, as senhoras sentadas nas varandas, os meninos jogando pique-bandeira, o trabalhador no caminho de casa...

A nuvem vai descendo a ladeira, preta como a pele de João. E o povo da cidade encolhe diante dela, na certeza de uma tempestade. Encolhe tanto que Maria não vai mais às reuniões do conselho popular, João não se atreve a enfrentar a nuvem para ir até o sindicato.O povo diminui.

Meses trancados, um dia João vê uma luz branca pela fresta da janela, e conclui que a nuvem passou. Aos poucos a molecada coloca as cabeças magras pelas fendas das portas e estacam abobados com o que vêem.

Não há mais cidade. Muros altos separam as casas, de um jeito que José não pode ver o lar de João, restringindo todo o horizonte na contemplação da velha Fábrica.Quando João saía aflito para ver o que havia, a sirene tocou. Era o chamado da Fábrica. Os homens devem ir. João busca a marmita no chão e segue para a usina espremido pelos muros.

Ao alcançar os portões lhe surgem duas filas, e homens de branco, como a pele de Maria, entregam joão a joão, viseiras.-"A partir de hoje, todo operário trabalhará com essas viseiras. É para o bem de vocês!No começo elas vão incomodar, mas se acomodem."

Enquanto isso, de dentro das casas outra sirene tocava.Era a escola. Mas a escola foi demolida! Uma velha surgiu de um muro e gritou: -"marias, entrem em casa e larguem sua prole do lado de fora!".

As marias obedeceram e a meninada abobada olhava pros lados. Num espanto desceram telas. Tvs coloridas 29 polegadas!Os filhos de João nunca tinham visto nada igual! As telas de repente incandesceram, e mostraram uma lousa com o alfabeto. Uma voz ditava sentenças e pedia que repetissem.

De dentro de casa as marias estavam inquietas, sem saber o que se havia de fazer. Os rádios sem sintonia, os jornais há muito tempo não eram entregues, a maria queria saber...

Mas marias não hão de saber.Marias tem que preparar a marmita envenenada com os ares da cidade. E depois Marias hão de lavar o chão, já que o chão é o alvo dos olhos de “homens de bem”.

E assim seguiram dias, meses, anos. Marias morreram, Josés nasceram, Amélias adolesceram.Quando adolesciam meninos e meninas eram levados pra um encontro, e de lá saiam casais.

Ainda contam pela cidade morta da Democracia, que loucos diziam que aquela nuvem era de papel. E que os donos da Fábrica pra mantê-la viva, fabricaram essa nuvem e penduraram no céu. Esses doidos sumiram no mundo, ninguém sabe pra onde, os donos da Fábrica dizem que foi melhor assim. Só sei que um João outro dia gritou: -“Liberdade!”, e em poucos segundos estava no chão.

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