Chuva Verde
Meus olhos apertaram no escuro. Tinha medo de a brisa fazê-los abrir. Quando olhos escancarados pela brisa, piscam, ardem como chaga viva. Mas levantei, e a cidade estava toda coberta de verde. Como se as árvores tivessem deitado pra jazer entre meus pés descalços. Elas estavam assim, como um tapete de folhas e galhos talhados para não machucar. Quis saber por que. As chuvas de ontem derramando pedrinhas de granizo, deitaram todo o verde no chão.Num desses espetáculos inesperados dessa grande e vaga cidade. Nunca esteve tão bonita. Se pudesse buscar na noite de ontem aqueles cristais caídos sobre a pele nua das flores vermelhas no quintal, sobre o asfalto “negro brilhante” numa poesia antitética: o negrume salpicado do branco mais lívido... e o verde. Hoje me senti acariciada pelo verde, pelo ver-te, pela manhã tão gris. O cinza do céu e do concreto pintava no verde uma cor mais viva e eu que buscava na cor a minha alegria ,tive um dia repleto de deleites e angústias marrons.
Amei novamente alguém de um passado remoto, desamei alguém de um passado recente, e de passado foi feito esse dia nostálgico, como o verde no chão. E um “será?” gostoso ficou impregnado no meu olfato.
A tempestade pingou em mim, lavou da alma toda a pretensão, e aquela brisa fria não passou, ainda está aqui. Nesse momento um vento gélido, deliciosamente úmido me encharca enquanto passa pelas sacadas. De repente ouço cantando em mim Caetano:“Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim”e me sinto assim, passageira de um vagão enorme que não sei pra onde vai.
Um velho amigo me parou na Curitiba e me disse que a vida é feita de desencontros. Nada se encontra senão através do desencontro. Pensei que não, a vida é feita de encontro!Mas ontem depois de um imenso pranto esbarrei num velho novo amor.Encontro é feito de vida. E me dei conta que o presente não existe. Vida é feita de lembrança e expectativa. Saudade e sonho. Presente é só um instante pequenino que enquanto isso vai passando. E o futuro é o tempo mais doce. É o não saber, é o querer podê-lo, é o ser humano e todas as suas vontades. Que meu futuro tenha gosto de uma fruta azeda e ambrosia. Que seja cinza de nuvem e verde de folha com granizos salpicados no meu quintal. Que haja hoje para tanto ontem, e que as parcas lembranças que guardarei das árvores beijando meus pés, permaneçam em minha alma até que chova verde novamente.
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