13 março, 2008

É que tem uma luz- eu digo sem firula de versos - prateada nos olhos.É que o sorriso é de uma imensidão desproporcional ao rostinho infantil, levantando as buchechas que apertam seus olhinhos rasgados...é que os pés são gordos, macios como massa fresca...é que a mão é de uma carícia!
É que ele ri - gargalha- em tons de altura definida... melodicamente. É que ele faz biquinho...é que quando dorme põe a mão no rosto como se refletisse sobre as questões mais complexas do teu mundo ainda tão singelo... singular.
É que ele espirra bonito e depois ensaia uma interjeição de alívio que derrete agente.É que ele não chora. Ele mia. E sorri para qualquer filho de Deus que lhe dê atenção. É que ele é único... não só pra mim... ele é de uma natureza nova, mais limpa, mais delicada e diz mais com seus ensaios silábicos que todos os filósofos, políticos, colunistas, clérigos, poetas...
É que ele gosta de ouvir samba... adora pandeiro e é de uma matéria desconhecida, irresistível a mordidas, beijos, apertos e cócegas.É que ele desarma qualquer arrogância- mesmo os mais arrogantes se entregaram a sua doçura.
Ele é meu filho.minha labuta, meu gosto, meu ofício maior e meu parque de diversões...

28 janeiro, 2007

sarna

Minha alma coça.
Coceira insaciável]
Coceira que rói]
Coceira que move.
Coceira que afaga.
Mas nunca para.
Mas nunca me deixa parar.

28 novembro, 2006

IGNORE

Eu não sei de nada.
E como não sei de nada nem sei se quero saber.
Mas vou ,a custo e a contra gosto, dechavando a vida enquanto ela me faz.
Enquanto ele me olha, enquanto outro me diz, enquanto tanta gente mente por esquecer da falsidade o não vigorar.
Enquanto nuvens roxas cortam tardes laranjas manchando a noite de cor.
Enquanto de tanto olhar pra ele sei seus olhos de cor.
Sei seus lábios de dor.
Sei dos seus beijos o amor que me sobra, que me resta... único.Cínico.
E assim me contradigo.
Mas não importa, se não sei de nada menos ainda devem considerar.
Só não quero olhar pra elas com desamor, por fazer do tato um banal consumo.
Chico disse: "Eu prefiro as putas". Não importa o contexto. Elas hão de ser abençoadas.
Mas o tato é mais. O tato é procurar aqui o que há de menos terreno. E é achar o deleite de sentir a alma na mais densa matéria. É religião. E no santuário de seu corpo eu hei de ser Deus dos teus carinhos, por achar neles o teu espírito e a tua excência. E ao me desfazer dela, sem amor ou sem cuidado, sou o pior pagão.
E não hei de julgar os loucos, se a vida me ensinou algo é que não há normalidade. Quem é são o bastante e em que parâmetros o é para definir a loucura? E se somos nós os loucos de pedra quem nos perdoará pela nossa incoerência? Pois se defino consciência como o que rege a maioria, quem é ditou à ela o ignorar? Quem é que ditou à ela a indiferença e o ato de banalizar a vida e a morte?
Mas eu julgo a pose, a falta de coragem, a indiferença.
É isso que me rói, mas é isso que me move.
Eu canto é pelos loucos, pelos cantos, pelos morros. Eu canto é pelas putas, pelos renegados e pelas margaridas que crescem em voltas dos brejos sujos desta cidade.
Pra mim aquele que desvia o olhar dos becos sujos tem medo de olhar pra dentro.
Pra mim quem está na sua cobertura em Manhatan e vem aqui fazer um pacote de turismo passeando de ônibus blindado na favela da Rocinha, apontando abismado para as casas amontoadas nas ruelas pra voltar da sua aventura urbana pra dormir tranquilo sobre traviseiros depena de ganso, não é abastado, é covarde.
Mas se o dom de uns é o ego inflado, caberá a eles pagar pelo caos da rebelião dos homens.
A violência é a reação dos renegados. Mas eu acredito em outras formas de se rebelar.
Pra mim quando o sol se põe é hora de acordar.
E quando o dia amanhece, é hora de andar na praia.
A tarde é quando se fecha os olhos pro dia pra mais tarde abri-los pra noite.
Pra mim falsidade não vigora nunca. E o erro nunca é de quem confia e sim de quem trai.
Por isso nunca perco a fé na vida, mas eu não sei de nada...
Ignore.

12 setembro, 2006

...

Corpo, vento, noite.
jabuticabas, olhos, dentes brancos.
Nossos corpos sob o vento da noite, numa noite de vento.
Teus olhos, jabuticabas negras como a noite e o vento,
trazendo lembranças vivas no teu sorriso branco.
A estrela do Acaiaca, a lua ausente, os faróis,
eram as luzes reluzindo sobre nossas cabeças, sobre meus olhos descrentes...
e tanto desejo rouco berrando pelas nossas pupilas,
ralhando pela nossa graganta, rasgando minha alma gelada,
morria na noite sob o enlace de nossas mãos, sob o cúmplice tato dos nossos braços atados.
E o assassínio daquele desejo, não levou os fantasmas rondando meu quarto, quando, já dia, você durmia exato sobre toda a minha vontade.
vai...
Por que dormir, se o sono não é tão sonho quanto, de olhos escancarados, beber nos olhos teus a doçura castanha de outros dias? Salivar pelo inexorável desejo da delícia de ser amante e de ser amada na imprevisibilidade de uma noite vã. E de amar, sim, mas calados, colados, alma e colo, calma e olhos ardendo laranjas pelos cigarros, destilando nosso sonho em brasa,fumaça,e pó.
Cinzas de um amor febril e louco, reincidente e torto, que embora vás embora ainda queima e resiste. E somos nós tão roucos, tão pálidos, tão fracos, ao ponto de abandonar a utopia ao primeiro obstáculo, mas ainda tão românticos, acreditamos ingênuos, que vale o sofrimento por uma parca lembrança, latente quando em noite de vento.
E sei que ,inevitavelmente, serei eu a tola a decorar seus trejeitos, seus gestos estranhos e as sentenças sagradas sobre a vida e seus maus-tratos. Sei que é fato que o dia engole nossos desejos, como um monstro faminto de luto, e somos nós insetos desesperançosos na luta contra um tufão. Mas não haveria em nós a semente perdida de um plano remoto, mas possível? E a crueza de nosssos corpos afins, e delícia de sentir um fragmento seu sobre minha pele fria, não seria enfim, o ressurgir de nós?
Você falava de sonhos, e o teu beijo era música. Hoje você fala de música e eu não sei do teu beijo. E assim, meus ombros sob teus olhos calados, ouvimos aquelas "so old songs" e mirávamos a estrela do Acaiaca, tão aceza quanto nós.
É hora de ir. E tantas palavras são soluços de dor. E quantos fonemas são anúncios de amor que nunca irão se conter. E o santo delírio de ter mais uma vez, soará pelos labirintos dos lábios seus, e morrerá na tua boca como um beijo marrom.

18 agosto, 2006

Amar não pretende entender...
e o acaso não pretende encontrar. E eu que vi na noite o acaso na busca de um sim, que não veio, e que não virá, sei que sou o reflexo daquelas palavras, daquele beijo.
Sou um espectro do nosso encontro, da sua voz, e de mãos em meu colo, em meu corpo, em meus olhos descrentes.
Caberá ao teu carácter dúbio, à dualidade da sua alma, ao sim e o não rompendo os limites trêmulos do meu vestido, desvendar o mistério do nosso tão pensado futuro.
E aqueles versos ecoarão mais que sonoros, entre os laços tortos das nossas mãos afins...
um beijo

18 julho, 2006

A-FAIR

Compramos teu jeito
vendemos teus gestos,
no silencio do teu segredo
o que me importa é o sucesso.
Façamos segredos,
Se segredo é pecado.
Somos insanos pagãos
A procura de espaço.
Façamos secreta nossa luxúria,
Talvez assim intrigue mais, venda e renda mais e mais.
Segredo é sagrado. Silêncio! Sussurre...
Sigilo sonoro é pecado.
E calam vozes, amantes, amores e algozes
Se fazem todos de segredos e pecados
Agora não silenciosos mas sussurrados,
Ralhando a garganta roçando na língua sigilosa
[...sibilosa .
Um parêntesis cabe a todo texto que é muito silêncio:
(melo damas nos melodramas que ignoram neologismos)
roçam amídalas, para quê?
Se já perdi a aliteração pelo capricho do parênteses
E se sussurro é para tornar audível todo sigilo.
Silêncio!É segredo...
Tem muito pouco de sagrado,
mas um pouco muito, desespero.
E agora,
O desfecho:
reticências
[...]